Atravessas a rua
de mãos esquecidas nos bolsos.
Caminhas, de golas levantadas,
olhas o passeio de rosto impenetrável.
O vento alcança-te os passos e
quase roça a bainha do sobretudo preto.
Sentes que algo te puxa para ficar.
As pedras do passeio alongam-se
em estreitas linhas que te fazem lembrar
o céu dilacerante de Abril.
Cerras os punhos sob o tecido espesso
e o sangue aflui-te vibrante
nas artérias entupidas de palavras.
Desejas ter dito o que o silêncio
te fez assomar ao peito apertado
em linhas de nylon inquebrável.
Não olhas para trás
mesmo quando o vento te murmura ao ouvido
as frases dos Clássicos que abandonaste
nos muros das casas por onde te desenhas
e onde foste deixando folhas caídas e
camas vazias, sem peso.
Os contornos das esquinas trazem-te de volta.
As origens são reais e perdes-te na sombra.
Representas os desejos de um homem
que ainda acredita ser possível voltar
e acredita sobretudo no poder dos acasos felizes
assim como na boa ventura das horas que passam
devagar, ao longo dos passeios por onde
ainda se perdem e encontram desconhecidos.
Segunda-feira, Maio 12, 2008
Ruas de Dezembro
Por Sara F. às 17:03 4 comentários
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