Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Idílio

«Enquanto viveu no campo, no meio da natureza, rodeado de animais domésticos, embalado pelas estações e pela sua repetição, o homem ainda tinha pelo menos um reflexo desse idílio paradisíaco. (...)
No Paraíso, quando Adão se debruçava nas fontes, ainda não sabia que estava a ver a sua própria imagem. Não teria compreendido Tereza que, quando era pequena, se plantava diante do espelho e se esforçava por ver a alma através do corpo. Adão era como Karenine. Às vezes, para se divertir, Tereza punha-a à frente do espelho. A cadela não reconhecia a imagem e olhava para ela com um ar distraído, com uma indiferença incrível.
A comparação de Karenine com Adão leva-me a pensar que, no Paraíso, o homem ainda não era bem o homem. Para ser mais exacto: o Homem ainda não se tinha lançado na trajectória do homem. Pela nossa parte, há muito que estamos lançados nessa trajectória e voamos no vazio de um tempo que corre sempre a direito. Mas ainda existe em nós um fino cordão a ligar-nos ao longínquo Paraíso enevoado onde Adão se debruçava sobre a fonte e, ao contrário de Narciso, não fazia a menor ideia de que a pálida mancha amarela que lá via era a sua imagem. A nostalgia do Paraíso é o desejo que o homem tem de não ser homem.»
in A Insustentável Leveza do Ser,
M. Kundera

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Últimas gotas

Olhei para a janela na manhã imersa em silêncio
enquanto desfazias a noite com as mãos ensanguentadas
de frio e de solidão. Ergueste os braços numa espiral fatídica
de elos e abraços perdidos. Chicoteavas com sopros de fogo
as paredes na penumbra, manchando de um cinzento de prata
tudo o que à nossa volta se levantava por entre hálitos de sono.
Caído, então, no implacável abismo do silêncio, encontrei-te
olhando para mim, de costas para as audazes frestas do vidro
por onde entravam a rua e o mar e outros continentes
em cujos horizontes os navios nos levavam de longa viagem
e a tangibilidade do céu nos enchia as malas. Abraçámo-nos e
dissipámos a neblina do quarto oculto em brumas, deixando
as radiações solares secarem as últimas gotas derramadas.