Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Últimas gotas

Olhei para a janela na manhã imersa em silêncio
enquanto desfazias a noite com as mãos ensanguentadas
de frio e de solidão. Ergueste os braços numa espiral fatídica
de elos e abraços perdidos. Chicoteavas com sopros de fogo
as paredes na penumbra, manchando de um cinzento de prata
tudo o que à nossa volta se levantava por entre hálitos de sono.
Caído, então, no implacável abismo do silêncio, encontrei-te
olhando para mim, de costas para as audazes frestas do vidro
por onde entravam a rua e o mar e outros continentes
em cujos horizontes os navios nos levavam de longa viagem
e a tangibilidade do céu nos enchia as malas. Abraçámo-nos e
dissipámos a neblina do quarto oculto em brumas, deixando
as radiações solares secarem as últimas gotas derramadas.

1 comentários:

Rain disse...

Simplesmente adoro...