Domingo, Dezembro 24, 2006

Musselina

A memória ilude-me nos segundos
em que os sonhos se diluem em espessas gotas
inundando o teu colo de rosas brancas.
As pétalas do tempo nessas lembranças
entre os teus dedos, como o vestido de musselina
naquela tarde de Verão.
A tua camisa de xadrez, linhas cruzadas
delineando as curvas apertadas da minha mão.
E ficou o vestido. A mão. E as pétalas.
Os fios entrelaçados de longos beijos
e texturas de Verão.

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

A cidade

Do alto vejo a cidade.
Focos de luz aqui e ali.
Insónias.
Angústias demoradas
em ausências nocturnas.
Canso-me rapidamente do silêncio
do cimento e dos pilares
desequilibrados.
Construções antropóides
sem nenhum traço de humano.
Ergue-se, sempre ao fundo,
a montanha verde
de antenas pesadas para o céu
cor de prata,
em que o sol bate e reflecte e foge.
E o verde é pó negro
numa vaga nebulosa de partículas.
Formas geometricamente inúteis.
Inábeis. Inaptas.
Esperas ardentes por outro dia.
Sempre amanhã.
Mas, enquanto espero esse depois
que não chega,
fico por aqui a ver do alto a cidade.

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Estrela Polar 2

Na linha do horizonte apenas vultos de gaivotas já velhas
pareciam aventurar-se em voos a pique alternados com planagens lentas.
E pareciam demorar-se numa linha ténue separando céu e terra.
Contemplei-as alguns segundos, para me reencontrar daí a pouco novamente só.
O mar engolia fugazmente a luz já fraca, fazendo a noite chegar mais cedo.
A esperança estava agora longe, arrastada por marés que vieram e foram sem me levar.

O vento cada vez mais gelado sacudindo-me o rosto mantem-me acordada.
Profetiza num estridente sibilo o que desconheço e não sei se virá.
Estou cansada. Adormeço.

Um barulho desperta-me os sentidos, atordoados pelo ritmo monótono
das ondas maiores e maiores cuspidas das entranhas da terra e sem destino.
Olho na direcção de uma forte luz proveniente de um sul que não sei onde fica.
Estou salva. Embarco de um só salto, amparada pela mão de um velho marinheiro.
Afasto-me olhando para trás. É a última vez que vejo aquela coordenada.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Meia-Luz 1

Era de noite e o frio instalara-se já nos recantos de cada quarto da casa. Alice observava a meia-luz o seu corpo, após um banho quente para enganar o cansaço de um dia de trabalho. Costumava fazer este ritual dia sim, dia não, em frente ao grande espelho do quarto. Acendia o candeeiro da mesinha de cabeceira e ficava horas a tentar descobrir imperfeições. Não se atrevia a acender a luz de cima, pois a ideia de se poder observar na plenitude da sua capacidade visual era insustentável e absolutamente desprezível. Considerava mesmo que, a meia-luz, todo o seu corpo e as suas formas se tornavam mais harmoniosas, menos imperfeitas e qualquer vestígio de idade que pudesse andar a devastar-lhe a figura tornar-se-ia, naquele momento, como em outros de igual devoção, praticamente imperceptível.
Passada uma longa hora de minucioso exame, vestiu o roupão, calçou uns chinelos de quarto velhos, que usava todos os Outonos, e dirigiu-se à sala, onde a lareira, com um lume agora mais baixo, aquecia parcialmente o ambiente, o chão, os cortinados, tornando a permanência naquela divisão um momento único e memorável dentro daquele apartamento irremediavelmente frio.
Sentou-se no sofá de cabedal, que dispusera de forma estratégica de frente para o televisor; mas, depois de um rápido e confuso zapping, desligou o aparelho e resolveu ler um pouco, na esperança de que o sono viesse mais cedo que nos outros dias e não tivesse, mais uma vez, de se aperceber tão claramente da sua solidão e da estupidez das suas noites, fechadas, encurraladas no meio de uma inexistência que se tinha já tornado normal por ali.

Mário Cesariny- O Navio de Espelhos

Para ler e ouvir...

http://cristalina.multiply.com/music/item/285

Encontrado no blog Cristalina