Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Chão de Papel

Há luz nos meus passos.
Consigo vê-la através da bruma
que me antecipa outros mais largos.
Piso o chão de papel ao de leve
e espreito para ver o brilho.
Ofusca e ilumina tudo em redor.
E de repente sou tocha, chama.
Incendeio de lume tudo o que toco.
O Mundo é mais quente.
E eu também.

Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Adónis

















Pela janela dos teus olhos
vejo mundos de outras cores.
Castanhos cor de mel
pintam as ruas que percorro
todos os dias.
Deixam no chão pétalas
de um branco pérola,
corais de Adónis soltos na brisa,
um vento suave de encontro ao rosto.
Olho de novo.
És tu. Existem laivos de ti
Naqueles tons.
Agarrados aos muros.
E voando, nas pétalas.

Janela Turva

...a todos os que vivem a ansiedade da espera quando a única nesga de esperança é uma janela turva ao fundo da sala

Olhei pela janela turva da sala de espera.
O ar abafado daquele amontoado de gente doente
matava-me um pouco mais, já consumida
por uma dor aguda no lado esquerdo do peito
que me impedia de respirar quantidades de oxigénio
iguais às dos outros seres humanos.

Olhei pela janela turva da sala de espera.
O tempo estancara horas atrás. E com ele, eu.
Em redor, as pessoas assemelhavam-se a animais
moribundos, encurralados numa encruzilhada sem saída.
Olho para o painel. A minha senha coincide.
Sou eu. É a minha vez.

Olho uma última vez pela janela turva da sala de espera.
Pareço ignorar a chamada e a enfermeira de bata branca ao fundo.
Os moribundos adormeceram de fadiga,
saciados por uma dor que é minha, não deles.
Dou um passo. Trémulo. E mais dois de seguida.
Entro naquela outra sala. Fecho os olhos e a porta atrás de mim.

Terça-feira, Novembro 21, 2006

Faz-me um Favor

... a Mário Cesariny (1923-2006) - é com tristeza que te vejo partir!
Faz-me um favor,
não digas nada.
Deixa-me escutar a tua presença.
Larga essas roupas velhas
com que sempre cobres a pele.
Deixa-me ver-te.
Despe-te devagar, deixa-me olhar-te.
Toca o cabelo gentil, deixa-me sentir-te.
Ah, como é bom saber que existes por aí,
que o tempo não te selou o peito
e que os rios continuam a correr
para ti.
Quero perder-me nas algas e nos recifes
do teu mar jade de cristal.
Ah, anseio os teus lábios de mel dourado
e de romãs cor de carne de paixão.
Em Maio, numa toalha de linho branco
estendida no colo de um manto verde
céu azul, beijos e rosto rubro.
Faz-me um favor,
não digas nada.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

O Menino e o Boneco

E sai pamódi e tem ki entra! Dizia uma mulher corpulenta para o filho franzino que chorava no banco do lado oposto do comboio. O boneco, que em tantas aventuras o acompanhara, parecia não estar bem, tinha, certamente, um problema.
Depois de um minucioso exame feito por aquela mulher com um ar experiente e calejado pela vida, lá descobriram que o boneco tinha uma perna partida.
À volta parecia não haver ninguém preocupado ou que partilhasse de tamanha dor de ver a dura missão de restaurar uma peça tão importante no desenvolvimento de um pequeno ser.
A mãe, continuando a balbuciar pequenas frases de um crioulo difícil de entender aos ouvidos menos atentos, não desistia e tentava enfiar a perna solta no único buraco em que parecia ser possível criar uma forma anatomicamente credível. Esforçou-se até o suor lhe cair pelo rosto garridamente maquilhado, mas estes bonecos modernos têm uma certa resistência às modificações intencionais, se lhes quisermos arrancar a cabeça, não importa a força que façamos, não seremos bem sucedidos; no entanto, se uma criança atirar o dito boneco contra uma parede, a cabeça desfaz-se em pequenos estilhaços de um plástico pobre e farelento.
Ouviu-se ao longe uma voz feminina a anunciar a próxima estação. Reboleira, disse a voz. E a mãe, num movimento quase furioso levantou-se, pegou no pequeno infante lavado numas lágrimas que, praticamente secas, apenas se retratavam em soluços insistentes de desespero, e saíram espavoridos porta fora.
Não cheguei a perceber se aquela fúria com que olhara as pessoas em volta e com que fincara as suas unhas no pescoço do boneco, como no pulso do miúdo, se devia ao facto de se ter apercebido da sua incompetência em arranjar brinquedos ou a qualquer outra coisa que talvez me tenha escapado.
Tentei esgueirar o meu olhar curioso pela multidão que agora se aglomerava no cais. Ao longe, podia ver a mulher a bracejar de uma forma quase teatral, desaparecendo no meio da multidão e o rosto do menino apertado de sofrimento. Perdera o seu querido boneco, o seu companheiro, e a Mãe não respeitara a sua dor.

Dias de Chuva

Subo esta rua apertada
por janelas e prédios salientes
que tombam e caiem na estrada.
Reconheço o passeio
que tantas e tantas vezes percorri
em noites frias de Inverno,
com os pensamentos encharcados
de uma chuva miudinha
que demora a secar.
Hoje não é diferente.
Procuro com os olhos ansiosos o voo
da gaivota que me anuncia
a tempestade no mar.
Chove.
Afogo-me em gotas
de transeuntes indiferentes
à minha presença ou a algo análogo
ao que julgo de mim.
Espero que a rua acabe depressa,
e com ela também os prédios de cair.
No céu um baile de nuvens densas
desafia-me para uma corrida.
Nada posso fazer.
Acelero o passo para o fim da rua,
derrotada, abrigo-me
e fico à espera que a chuva passe.

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Ao longe o mar









Foto: Ao longe o Mar, Sara F.


Olho ao longe o mar.
As ondas.
Espinhos na saudade de ti.
O sol brilha agora por entre o raiar do sal
na água em que me afundo.
De quando em vez, barcos visitam a minha dor
em turnos passageiros
de quem vem para não ficar.
Em baixo, o abismo engole os sulcos
na areia cravados pela angústia
dos olhos salgados na tua ausência.
Fecho este mar de sargaços.
É noite.
As estrelas voltam a brilhar.
E amanhã também o sal.

Domingo, Novembro 12, 2006

Menino homem

Esta noite
as estrelas alinham-se no céu
para compor o teu rosto
junto ao delas.
Brilha em ti,
o olhar de menino
saltando de uma em outra,
contando-as como berlindes.
Sonhas com histórias deste
e de outros mundos
maiores e distantes.
Adivinhas duelos de guerreiros valentes,
histórias de amor encantadas
onde também as estrelas,
no fulgor incandescente
da sua luz,
desenham os teus traços.
Menino homem
deitado sobre a areia na praia
virado para o céu
esperando que o amanhã
volte todos os dias.

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Ramos Verdes














Ramos Verdes, Sara F.


Saí para o quintal da nossa casa na serra
onde o sol tinha sempre um sabor diferente
e molhava agora as gotas de água secando ao vento.
Era um dia calmo de uma brisa primaveril,
como aqueles em que falamos do Universo
e do Infinito, sem medos,
e em que todos os sonhos são tangíveis.

Enrosquei-me a um canto do alpendre,
n'um banco velho que o teu pai construíra
para ir à pesca.
Olhei para o jardim que cercava a casa.
Imaginei como seria ver crianças, outrora nós,
correndo por entre os ramos verdes da infância,
gritando pequenas interjeições
de uma alegria que dura o que dura o sol
por aquelas bandas.

Sentaste-te do meu lado.

Ficámos os dois a lembrar aquelas memórias
de um futuro tão proximamente distante de nós.
Encostei a cabeça no teu ombro, como sempre fizera,
Olhei para o teu rosto, agora tão perto,
e, em tom quase infantil, desafiei-te para uma corrida.
Saltaste de um só impulso e saíste correndo,
chamando-me,
em direcção aos ramos verdes.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Pássaros












No comboio que demora a chegar ao destino,
vejo o mundo através de uma janela fechada.
Sinto-me sufocada por entre o dióxido de carbono
de gente que dorme e respira.
Dormem.
Xiiiiiiu... eles dormem.
Nos solavancos de uma paisagem urbana
embaladora de dormências
nocturnas.
Pálpebras caídas sobre uns olhos
cegos pela chama de um Sol que brilha intenso,
escondido por entre a lama que escoa dos telhados.
Telhas de lama vermelha.
Sujas.
Limpo-as com um olhar arregalado
para a solidão.
Os pássaros.
Só os pássaros ousam lá pousar
afundando as suas finas patas.
Saltitam como eles os meus olhos.
De casa em casa. De vida em vida.
Mil rostos cheios de olhos.
Os teus... tão longe daqui.
Talvez noutras casas. Noutros telhados.
Também eles vermelhos e sujos.
Cedo agora eu aos carris monótonos.
Adormeço..
Embalada pelo comboio que não chega nunca.
Sonho com os pássaros no comboio.
As pessoas nos telhados.
As minhas unhas, garras.
Quero rasgar-te a pele.
Marcar-te a carne.
Acordo com o solavanco da máquina
a travar para abrir a gaiola
de pássaros libertos da sua modorra matinal.
Voam loucos procurando uma outra.
E depois dessa, outra. E outra.
Perco-me, então, noutros carris, noutras casas.
Noutros pássaros.
Saio do comboio.
A viagem termina aqui.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Rough hands

You made the door bang behind you
when you walked into the room.
I looked at you.
Surprisingly beautiful as always.
The mist of your lonely nights
will soon be a hazed memory through the long days
that are soon to come.
You said, holding my face in your rough hands.
I trusted you. You never lie.

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Estrela Polar 1













Não sabia quantos quilómetros me separavam da costa.
Tentei estimar uma distância marcando o horizonte de polegar espetado
em direcção a um céu cada vez mais escuro a centímetros da minha cabeça.
Mas a minha habilidade para essas coisas dos antigos
nunca fora um dom que tivesse desenvolvido a tempo de me ser útil.
Nem mesmo as estrelas me podiam servir para traçar uma rota,
pois perdia-me contando-as ou sonhando com elas.

Sabia apenas que a minha casa ficava sempre em frente.
Mas frente era agora qualquer direcção em que soprasse o vento.
Olhei, quase sem perceber, à minha volta na esperança de encontrar
a estrela polar que me guiasse de novo a terra firme,
mas no céu as nuvens juntavam-se numa onda de conspiração atmosférica
para me fazerem afundar mais um bocadinho naquele desespero.


[a ser continuado quando a Estrela Polar finalmente aparecer...]

A Árvore















De frente para o quintal
vira gerações crescer.
Refrescara, nas mais quentes tardes de Verão,
a grande casa amarela
onde o vento sussurrava
por entre baloiços de ferro e corda.

Protegera as frágeis telhas
nas mais devastadoras intempéries
de Invernos inundados de frio.

Do ramo mais alto,
meninos e meninas,
avistavam tesouros a estibordo
num mar longínquo de pensamentos,
barcos de papel
e soldadinhos de chumbo.

Duzentos anos e uma casca pronta a estalar.

Hoje.

Os meninos já não trepam
e a chuva deixou de cair por ali.

O chiar dos baloiços,
agora vazios,
marca o compasso
de um tempo que deixou de ser seu.

Domingo, Novembro 05, 2006

As pombas

Cruzaste os braços sobre o parapeito de pedra
e fitaste as pombas ao longe.
Efectuavas na tua cabeça,
como em grafite,
cálculos matemáticos de dois
mais a raiz quadrada do Sol,
e contavas as estrelas que começavam a despontar,
num céu meio lilás,
por entre as asas das pombas.
Disse-te que essas contas não podiam estar certas.
Que o ar é mais denso que a terra
e até as aves pareciam saber disso.
Não era assim,
estava enganada.
Justificaste teorias, comprovaste argumentos,
Para no fim o Sol te deixar
com o rosto inundado
de x's e de y's...
e mãos vazias de resultados.

Sábado, Novembro 04, 2006

Cardos

Perdes-te por cardos
lamentas a dor e choras.
Amarga a rua que te guia.
Azeda essa vida que levas.
Doridos esses olhos que choram.
Volta atrás, recomeça.
Não te deixes perder
destes braços que te querem
tanto bem.
Volta atrás, recomeça.
Deixa-me dar-te essa paz,
este amor que trago comigo,
fechado no peito
só para ti.