Naquela estrada de terra batida,
onde já antes nos tínhamos perdido,
em tempos verbais e advérbios de modo,
o tempo parecia demorar-se mais.
Um grito perdido no pó das estrelas
iluminando as horas,
fez-nos sair do eco da nossa introspecção.
Olhámos as sombras em volta,
mas não havia mais ninguém.
Era uma noite fria de Inverno.
Só nós e o tempo e o chão.
Não nos beijámos nessa noite,
nem sei se nos apercebemos disso.
Estavamos longe de casa e longe de tudo.
Só nos tínhamos a nós e era pouco.
No auge dos medos e da fúria,
Saltámos vedações, atropelámos cordeiros,
para desembocarmos num lago de águas geladas.
Escondemo-nos do mundo e chorámos.
A vida parecia acabar ali.
Sábado, Outubro 28, 2006
Vedações
Por Sara F. às 15:15 2 comentários
Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Insónia
Inquieta no escuro da noite
Acendi a luz do candeeiro
na mesinha de cabeceira.
Mirei o tecto durante uns vastos minutos
Na esperança de aquela sensação de angústia
desaparecer do meu peito.
A olho nu o esterno parecia inchar
Como um balão.
A dor, até então restrita
a apenas uma secção do meu corpo,
invadira já tudo o resto.
Paredes, lençóis, espelhos, livros, janelas.
Generalizara a minha inexistência
a todas as coisas com que coabitava,
dando-lhes um toque de inacabadas.
Forjava verdades que não eram as minhas
Nem as delas.
Começara a chover lá fora.
Cá dentro
a luz iluminava
a insónia dos medos,
as sombras dos objectos,
despertando-me as pálpebras
de novo pesadas de inseguranças.
Apaguei o candeeiro
Pequeno em certezas absolutas.
O sono voltara.
A noite era ainda longa.
Talvez conseguisse dormir.
Por Sara F. às 20:25 0 comentários
Eco
Disseste que não havia espaço para os dois.
Que o mundo era demasiado pequeno
para tantas evidências comprimidas
numa única estrutura frásica.
Dissemos o que nos veio à cabeça
e até o que não queríamos ouvir.
Fomos o mero eco do vazio.
Fomos o ressalto de sombras perdidas
em paredes e muros e esquinas.
Fomos novos e envelhecemos à força.
Seremos algum dia diferentes?
Seremos algum dia?
Por Sara F. às 19:51 0 comentários
Quarta-feira, Outubro 25, 2006
(Sem) Asas
Não quero mais saber das asas.
Vou atirar-me assim mesmo:
sem paráquedas ou rede
ou qualquer artifício inventado
para amparar o impacto.
Fecharei os olhos,
respiração fervilhante,
e flutuarei.
Tenho a certeza.
Por Sara F. às 20:43 0 comentários
Terça-feira, Outubro 24, 2006
E tu, Cesário?
... à memória e ao sonho de Cesário (1855-1886)
E tu, Cesário?
Se não morresses nunca,
terias algum dia ficado satisfeito?
Se o sol viesse beijar-te
em pleno frio de Inverno
o peito,
de árvores nuas e castanhas
quentes,
de ruas desertas de gentes
e amores despidos
de preconceito.
Por Sara F. às 17:23 0 comentários
Quinta-feira, Outubro 12, 2006
100 km
Percorremos 100 km da nossa vida
sem trocar uma palavra
ou um som.
O vento contra o vidro parecia dizer
o que calávamos no silêncio
do céu escuro
que adiante engolia a estrada.
Olhaste para mim de relance
como se quisésses evitar a traição
dos olhos que se cruzam.
Apontaste para a Lua:
"Queres lá ir um dia destes?"
respondi que sim,
como duas crianças fingindo o impossível.
Agarraste a minha mão com força.
Mas eu não ia a lado nenhum.
Desviámos o olhar
e mergulhámos os dois,
novamente,
na ânsia do Infinito.
Por Sara F. às 19:28 0 comentários
Quarta-feira, Outubro 11, 2006
À minha Mãe...
Mãe,
queria ter-te dito há mais tempo,
Mas cresci.
Acordei numa manhã de Primavera e o meu corpo tinha mudado.
O pijama de flanela com que dormia todos os Invernos
(o dos bonecos, lembras-te?)
tinha desaparecido,
E com ele também os brinquedos
De pelúcia, de papel, de criança.
Substitui, nesse dia e nos que se seguiram,
O meu rosto por um novo,
Mais harmonioso,
Menos imperfeito.
Como as folhas no Outono.
Vesti um dos teus casacos, Mãe
(aqueles com que todos nos tomam como sérios)
E saí.
O Mundo cá fora tinha mudado
(ou então os óculos de sol que levei da tua cómoda,
juntamente com um baton encarnado dramático,
tinham um filtro que mudava as coisas e o tempo).
E de repente era Verão.
Voltei para casa nesse mesmo dia
cansada
(os adultos chegam sempre assim, sem tempo para nada).
Tudo está transformado nas nossas vidas, Mãe.
Mas ainda gosto de sentir as tuas mãos:
Alvas, quentes, macias como só as tuas,
Passando pelo meu rosto.
A tua voz apreciando baixinho
A mulher que me tornei,
mesmo apesar de desajeitada
naqueles sapatos novos.
Sabes, Mãe, não perdi as rosas brancas
Talvez hoje sejam apenas de outra cor.
Por Sara F. às 18:14 2 comentários
Domingo, Outubro 08, 2006
As coisas vivas
Apaga o cigarro que acendeste
Rasga os papéis, deita fora os livros
E vem deitar-te.
Não se pode fumar aqui dentro.
Esquece os sonhos que tiveste.
Atira-te para dentro de água e nada.
Vai até ao canal onde há peixes
De todas as cores e volta.
Volta com um deles para pormos
No lugar das folhas que rasgaste,
Dos poemas que não escreveste.
Na nossa estante de coisas vivas.
Por Sara F. às 21:12 0 comentários
Sábado, Outubro 07, 2006
Mutantes
Embalo no ritmo de um tempo descompassado
De corridas e pressas sem destino.
Roço o corpo dormente pelas paredes caiadas
De branco sujo de marcas de caras perdidas
No reflexo da multidão.
Unem-me a esta rapidez de desconhecimentos contínuos
Apenas os medos e uns certos traços fisionómicos
Que me recordam,
A cada sombra, que me assemelho a um mutante.
Desfigurado.
Movimento o meu corpo pesado e maior
Pelo meio destes gritos silenciados.
Sufoco.
Perdi a esperança de um dia emergir
À funda superfície dos espelhos quebrados
E respirar.
Por Sara F. às 13:01 1 comentários

