Terça-feira, Outubro 27, 2009

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As palavras surgem de súbito
na iminência do silêncio e as bocas
entrecruzam murmúrios breves.

No vácuo das subtracções, ouço
as línguas táureas sob a saliva
que humedece os estilhaços.

Segunda-feira, Março 09, 2009

Sépia

Repouso o olhar sobre o outeiro que cobre
a frente da casa onde inventávamos nomes
para as coisas de que nunca tínhamos ouvido falar.
Onde os nossos vestidos de linho pareciam guardar
o tempo e as saias rodadas espalhavam os segundos
aleatoriamente nos pequenos rodopios com aroma
de arando e outros frutos silvestres.
As rendas, os laços brancos e as fitas do cabelo
dentro das fotos antigas recordam-nos hoje
o cheiro da terra seca, os bichos da manhã
e o leve embaraço dos ponteiros a cada dia.

Sexta-feira, Março 06, 2009

Em profundidade

Acontece, por vezes, as gotas de Inverno
molharem-me as costas logo pela manhã.
A sensação do arrepio e o contraste
da tua mão contra elas - o degelo em jeito
de aquecimento global, particular
daquele instante em que, inversamente,
os icebergues têm apenas um terço de si
submerso e o restante corpo à vista.

Ciranda

Já é tempo de reavivar este Vermelho.

Respondo, portanto, ao desafio da Whyme: convite para cirandar.

Cirandemos, pois, então:

Agarrar o livro mais próximo: A Espuma dos Dias, Boris Vian.

Abri-lo na página 161: (Está-se no Capítulo XLVIII - pertinho do fim)

Procurar a 5ª frase completa: «Situados em locais escolhidos, longos jactos de essências cheios de reflexos brilhantes cruzavam obliquamente a sala e purificavam a atmosfera condensando à sua volta fumos, poeiras de metal e óleo quente que subiam em colunas rectas e esguias por cima de cada máquina.» (trad. Aníbal Fernandes)

Passar a cinco pessoas: Passarei, com gosto, aos que quiserem entrar na roda.

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Ruas de Dezembro

Atravessas a rua
de mãos esquecidas nos bolsos.
Caminhas, de golas levantadas,
olhas o passeio de rosto impenetrável.
O vento alcança-te os passos e
quase roça a bainha do sobretudo preto.
Sentes que algo te puxa para ficar.

As pedras do passeio alongam-se
em estreitas linhas que te fazem lembrar
o céu dilacerante de Abril.

Cerras os punhos sob o tecido espesso
e o sangue aflui-te vibrante
nas artérias entupidas de palavras.

Desejas ter dito o que o silêncio
te fez assomar ao peito apertado
em linhas de nylon inquebrável.

Não olhas para trás
mesmo quando o vento te murmura ao ouvido
as frases dos Clássicos que abandonaste
nos muros das casas por onde te desenhas
e onde foste deixando folhas caídas e
camas vazias, sem peso.

Os contornos das esquinas trazem-te de volta.
As origens são reais e perdes-te na sombra.
Representas os desejos de um homem
que ainda acredita ser possível voltar
e acredita sobretudo no poder dos acasos felizes
assim como na boa ventura das horas que passam
devagar, ao longo dos passeios por onde
ainda se perdem e encontram desconhecidos.

Segunda-feira, Abril 21, 2008

Um mundo sem som

Imagino, por vezes, um mundo sem som, deitada
na margem do rio oposta à da cidade onde cresci.
Imagino as bocas sem palavras, os carros em silêncio.

Imagino, por vezes, um mundo sem som e esgoto,
na superfície da pele, a audição dos gestos e a
eterna projecção da realidade no limiar do toque.

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Pêndulo, Paulo Tavares

Quarta-feira, Novembro 07, 2007

Hibiscus Mutabilis

Vejo por entre as lágrimas o Tejo.
Desprende-se do forro do vestido
preto que levas sobre a pele
como um escudo.
A manhã deixa pousados
nas minhas mãos os cânticos das ninfas
enquanto cumpre o ritual diurno
de te emaranhar o cabelo liso e de
te dar à face o tom rosado das liláceas.

Olhas para trás como se procurasses
a eterna justificação dos receios que
te assombram quando olhas a água funda.

Sorris debilmente sem perceberes
que afinal é apenas o frio
que te incomoda as pernas
e te torna o andar mais pesado.

Tenho agora nas mãos os cânticos e
no olhar a tua imagem inundada de sal.
É manhã e o sol desponta a oriente.

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Interlúdio

Nasço com o sol de madrugadas estivais
de vento leve no rosto, vagamente projectado
nas cortinas brancas dos salões de chá.
Lembro a paleta das auroras esquecidas
nos retalhos das mantas em sofás quentes.
E reabro os livros onde existem retratos que
me adornam esta solidão de memórias antigas.

Nasço com o sol de madrugadas estivais
e vou com a chuva todos os dias de Inverno.

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

Idílio

«Enquanto viveu no campo, no meio da natureza, rodeado de animais domésticos, embalado pelas estações e pela sua repetição, o homem ainda tinha pelo menos um reflexo desse idílio paradisíaco. (...)
No Paraíso, quando Adão se debruçava nas fontes, ainda não sabia que estava a ver a sua própria imagem. Não teria compreendido Tereza que, quando era pequena, se plantava diante do espelho e se esforçava por ver a alma através do corpo. Adão era como Karenine. Às vezes, para se divertir, Tereza punha-a à frente do espelho. A cadela não reconhecia a imagem e olhava para ela com um ar distraído, com uma indiferença incrível.
A comparação de Karenine com Adão leva-me a pensar que, no Paraíso, o homem ainda não era bem o homem. Para ser mais exacto: o Homem ainda não se tinha lançado na trajectória do homem. Pela nossa parte, há muito que estamos lançados nessa trajectória e voamos no vazio de um tempo que corre sempre a direito. Mas ainda existe em nós um fino cordão a ligar-nos ao longínquo Paraíso enevoado onde Adão se debruçava sobre a fonte e, ao contrário de Narciso, não fazia a menor ideia de que a pálida mancha amarela que lá via era a sua imagem. A nostalgia do Paraíso é o desejo que o homem tem de não ser homem.»
in A Insustentável Leveza do Ser,
M. Kundera

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Últimas gotas

Olhei para a janela na manhã imersa em silêncio
enquanto desfazias a noite com as mãos ensanguentadas
de frio e de solidão. Ergueste os braços numa espiral fatídica
de elos e abraços perdidos. Chicoteavas com sopros de fogo
as paredes na penumbra, manchando de um cinzento de prata
tudo o que à nossa volta se levantava por entre hálitos de sono.
Caído, então, no implacável abismo do silêncio, encontrei-te
olhando para mim, de costas para as audazes frestas do vidro
por onde entravam a rua e o mar e outros continentes
em cujos horizontes os navios nos levavam de longa viagem
e a tangibilidade do céu nos enchia as malas. Abraçámo-nos e
dissipámos a neblina do quarto oculto em brumas, deixando
as radiações solares secarem as últimas gotas derramadas.

Terça-feira, Julho 31, 2007

Histórias e futuros

Era esta a relva onde nos dias quentes
estendíamos a toalha cor-de-rosa e
nos deitávamos junto às árvores mais altas
imaginando para elas histórias e futuros.
Continua verde e fresca como nos dias em que
nos abrigávamos por horas sob a brisa
de verão ao longo das estações.
As árvores, um pouco mais velhas,
e como elas nós também, continuam a abraçar,
com o seu emaranhado de troncos nus,
o manto prateado que brilha de frente
para as janelas, por entre cujas cortinas
adivinhávamos vidas iguais às nossas,
sob as mesmas árvores, diante o mesmo rio.
Recordo neste sítio, onde hoje outros se deitam,
as palavras que cravámos nos troncos
e que ainda ecoam em mim como uma espécie
de halo luminoso em torno dos dias.

Terça-feira, Julho 03, 2007

Desassossego

Tenho em mim toda a dor do universo.
Mácula de gerações infernais de fogo nos punhos
cravado a ferro e alicerces de metal pouco nobre.
Vejo um futuro envidraçado, vestido de negro
onde outrora linhas brancas envolviam sorrisos
de meninos crescidos à força, agarrados pela corda
de um pião em torno de um foco de luz baça.

Perdi, por entre fugas, o tempo que me deram.
Fiz dele sorte nula de uma alma que não dorme
desassossegada por sonhos perenes caídos
junto do seio gelado de horas demoradas.
Humanidade que não se compraz em esperas.
Prantos de voz lânguida trespassam o limite do som.
Adiantarei talvez os ponteiros para chegar mais cedo.

Tenho em mim toda a dor do Universo.
Tentarei fazê-la frutificar.

Sexta-feira, Maio 11, 2007

Meridianos

Caminha
sobre mim
a sintonia
de eixos
perpendiculares
de linhas
oblongas
cada vez
mais finas.
Confluo
com elas
em pontos
axialmente
estratégicos
fusões
extensíveis
à extremidade
dos corpos.

Juntos
somos
Terra.

Terça-feira, Abril 17, 2007

Paralelos

Gastei a sola dos sapatos que trago
nas vezes que percorri a estrada
de casa até aqui.
Sinto a agudeza do chão e as pedras
pela superfície enfraquecida
de um couro velho já fraco.
Mas chego, enfim
ao banco de cimento frio
como o que me toca os pés.

Agarro a aspereza do assento
coberto de folhas caídas de mim.
Torno, então, ao sítio
de onde não cheguei a sair
no dia anterior.

Pelas marcas na terra
do lado esquerdo do banco
dir-se-ia que dormi ali
mesmo quando em casa
me lembrava dos dedos
enterrados na areia fria.

Elevo às pálpebras
as mãos sujas
e o tempo condensa-se
em flashes nocturnos
de segundos e minutos
alongados paralelamente
sobre o chão.

Hoje ficarei por aqui.